A Banda


A BANDA



A internet mudou não apenas a forma de distribuir música, mas também de criar ídolos. A dupla inglesa The Ting Tings, novo hype no Reino Unido e nos EUA, saiu dos clubes indie para o topo das paradas, usando a internet e o espírito de participação da rede para impulsionar como um foguete seu pop eletrônico dançante e animado com toques de experimentalismo.

Os primeiros singles da dupla formada por Katie White (voz, guitarra e baixo) e Jules de Martino (voz, bateria e efeitos eletrônicos) se tornaram uma febre, desbancando até mesmo Madonna na parada inglesa com That's Not My Name, de 2007. O primeiro álbum "We Started Nothing", lançado no Reino Unido em maio de 2008, já ultrapassou a marca de 300 mil cópias. 

A crítica também se rendeu ao balanço energético dos Ting Tings, que começaram a tocar juntos em Manchester em 2007 apenas por diversão. Foram chamados de “a banda mais eletrizante do país atualmente”, pela NME, mais respeitada revista de música do Reino Unido, e de “uma das bandas de maior credibilidade, aclamada e elogiada na cena indie”, pela BBC.

The Ting Tings
seguem o ritmo dos cliques da internet, servindo como um exemplo emblemático dos novos rumos da indústria musical.  Sua receita de sucesso é um pop dançante e melódico, totalmente distinto do bate-estaca clichê das pistas, baseado nas batidas sincopadas e envolventes de Jules e na voz sexy e cativante de Katie. É apimentado com temperos eletrônicos, tanto nas sessões rítmicas quando nas linhas melódicas, que recriam as músicas com camadas e mais camadas de trechos gravados (loops), proporcionando um caráter único e inédito. Doses de criatividade podem ser percebidas tanto na participação do público no álbum, como na inserção de trechos de telefonemas de fãs nas gravações, ou no incentivo ao público de determinado show para desenhar livremente a capa dos discos a serem vendidos na apresentação seguinte. Foi um breve, porém longo caminho, das rodas de artistas underground até o topo. 

Katie White e Jules De Martino precisavam de um nome para a banda que criaram “por acaso” em 2007. Só por diversão, Katie (vocal, guitarra e baixo) e Jules (vocal, bateria, eletrônicos) começaram a compor juntos e fazer shows improvisadamente como dupla. De repente, chamaram a atenção e causaram burburinho em festas na Islington Mill, em Manchester, uma unidade fabril da época da Revolução Industrial, transformada num bem sucedido ponto de encontro de artistas plásticos, cineastas, escritores, escultores, músicos e toda sorte de artistas alternativos.

Na época, Katie trabalhava numa loja de roupas de uma chinesa chamada Ting Ting, que é o termo em mandarim para coreto. “Achei o nome adorável. Também pode se referir a um som da inovação ou à cabeça aberta. Como o 'ting' que você ouve quando tem uma idéia”, diz Katie. Jules também adorou a idéia de eles se tornarem Ting Tings. O nome é formado por dois Tings “e nós também éramos uma dupla”. Como o tilintar de um sino, o novo apelido tinha a perfeição rítmica de uma onomatopéia. “Também somos muito percussivos”, explica Jules.

Contudo, Katie e Jules nem sempre foram os Ting Tings. Katie cresceu numa fazenda nos arredores de Manchester. “Era tão frio e tão chato, não havia nada para fazer. Então, sua única opção é sentar e compor músicas. Era tudo um céu cinzento. Com certeza passei toda minha infância entediada. Ouvia muita música ruim, não sei por quê. Música ruim, pop ruim. Qualquer porcaria que tocasse na rádio local. Fui adolescente nos anos 90 e para mim as boy bands e girl bands eram o máximo. Eu tinha um estojo de canetas das Spice Girls”, lembra.

Jules, por sua vez, nasceu em Londres e começou a gostar de música por influência dos pais. “Meus pais tinham uma coleção de discos incrível. Os clássicos: Beatles, Elvis, etc. Minha relação com música era muito estranha. Minha mãe diz que eu sempre ouvia o lado B dos discos. Eu era apaixonado pelo que faziam nos lados B. Musicalmente, eu gostava da produção e o lado B sempre trazia algo mais experimental, não tinha aquela obrigação de trazer hits. Isso me atraía. O segundo lado de um compacto geralmente tinha música mais interessante”, conta.

O primeiro instrumento de Jules foi a bateria, que ele começou a tocar com amigos aos 13 anos. “Não era uma banda de verdade, mas quando você é jovem você pensa que se trata de uma banda. Comecei a aprender guitarra, queria estar na linha de frente. Por acaso encontrei Katie. Estava em Londres com uma banda e Katie fazia parte de outro grupo, que estava de passagem pela cidade. Não estávamos satisfeitos com nossas bandas. Eu adorava Manchester. Havia muito mais bandas, muito mais lugares para tocar”, lembra Jules.

Katie, então com 19 anos, e Jules mantiveram contato por meio da cena musical de Londres e Manchester. Descobertas as afinidades musicais entre eles, Jules se mudou para Manchester e a dupla começou a compor. “Nossas músicas foram melhorando, queríamos fazer algo diferente”, conta Jules. “Ela é uma grande cantora. Ela me lembra Janis Joplin, Ricky Lee Jones, cantoras do tipo. Ela tem um vocal meio folk, meio jazzístico, meio preguiçoso, ela tem esse algo. Começamos a curtir Portishead e pensamos como seria bom fazer esse tipo de música juntos”. Após assimilar um DJ como terceiro integrante, Katie e Jules formaram sua primeira banda, chamada Dear Eskiimo, que durou cerca de um ano e chegou a assinar contrato com uma gravadora, mas não foi muito adiante.

A experiência no Dear Eskiimo acabou por levá-los ao Islington Mill, onde começaram a compor o tipo de música que os deixava mais felizes, e que se tornaria o cerne do repertório dos The Ting Tings. Islington Mill foi o lugar perfeito, um ambiente cheio de energia criativa onde “todos se enturmavam e ganhavam inspiração mutuamente”, segundo Katie.

Livres das pressões e exigências, Katie e Jules começaram a trabalhar com um pacote de idéias e princípios musicais. “Não sabíamos que tipo de som estávamos procurando. Nem mesmo tínhamos planos de formar uma banda depois da experiência ruim com o grupo anterior. Achávamos que ninguém iria se interessar pelo que estávamos fazendo, então começamos a criar músicas para nós mesmos, para tocar para os amigos no Islington Mill. Dois anos atrás, quando vim para o Mill, comecei a ouvir Talking Heads, Tom Tom Club, LCD Soundsystem, e todas essas bandas realmente interessantes que eu nunca havia escutado. Talking Heads foi a maior influência. Jules prefere músicas mas experimentais. Eu atraí Jules para o pop e ele me mostrou músicas realmente interessantes”, explica Katie.

A partir das idéias percussivas que surgiam naturalmente, Jules experimentou misturar sua bateria com vários equipamentos de efeitos, entre as quais dois Boss RC-50, adaptados para fornecer a flexibilidade necessária aos improvisos da dupla durante os shows. “Pegamos dois aparelhos desses e fizemos adaptações, com a ajuda de um amigo meu que sabe tudo de eletrônica”, conta Jules. “Soldamos as duas placas-mãe para que as duas máquinas interagissem. Queria que o sistema funcionasse um pouco diferente do que o original de fábrica, então mudamos o hardware. Os dois equipamentos funcionam simultaneamente, assim eu tenho mais memória, mais seqüências (loops) e maior versatilidade nos pedais”.

É na mistura singular de percussão e elementos eletrônicos criada por Jules que a banda encontra terreno para seus improvisos, formando uma química intuitiva entre os dois. “Não é como uma música de fundo (backing track). Você tem total controle. Temos muita liberdade durante o show. Olhamos um para o outro e por telepatia sabemos onde queremos chegar. Por isso cada performance é única. Pelo som da bateria eu adivinho o que ele está pensando; e acho que, pelo som da minha guitarra, ele sabe o que eu quero”, diz Katie.

O primeiro disco do The Ting Tings foi uma edição limitada de compactos em vinil com That's Not My Name e Great DJ na parte predileta de Jules, o lado B. A tiragem inicial foi de apenas 500 cópias -- "Era tudo que podíamos bancar" -- e esgotou-se por completo. Eles publicaram um quarto de suas músicas no MySpace (www.myspace.com/thetingtings) e não tardaram a receber respostas positivas de todos os cantos do planeta. A página da dupla recebeu mais de 1,7 milhão de visitas. 

Para a edição limitada do single Great DJ lançada no Reino Unido, que chegou a “Single da Semana do NME”, a dupla reciclou compactos velhos de 7 polegadas, inverteu as capas e refez os selos do vinil escrevendo o nome da banda e da música em fita crepe colorida. Ações de marketing anteriores para o mesmo single incluíram uma turnê por Salford, Berlin, Nova York e Londres em cujos shows o público era convidado a enfeitar como quisesse as capas em branco de um lote de cem compactos. Os discos decorados num show eram vendidos na apresentação seguinte.

Ganhando fama na base do boca-a-boca e do entusiasmo dos primeiros fãs, a platéia passou a crescer exponencialmente a cada apresentação bem-sucedida. “No primeiro havia 25 músicos no Mill e alguns amigos. No segundo, eles chamaram uns cem amigos. O terceiro foi anunciado na rádio local, o que foi muito estranho porque era uma apresentação num prédio particular. No quarto, um executivo da Sony dos EUA veio e sentou-se no chão com todas as figuras da indústria fonográfica britânica. Foi tudo muito rápido e inesperado”, lembra Katie.

Pegando carona na faceta fashion do The Ting Tings (Katie desenha cria suas próprias roupas), as grifes Betsey Johnson and Dolce & Gabbana usaram a música That's Not My Name em seus desfiles semana de moda de Nova York. Depois de uma pequena aparição no Festival de Glastonbury em 2007, a dupla embarcou numa turnê por universidades em outubro daquele ano. E também fizeram abertura de vários shows da Shockwaves NME Awards Tour de 2008.

The Ting Tings foram a terceira banda mais votada da lista de dez mais de 2008 da BBC, segundo a qual “A dupla formou uma das bandas de maior credibilidade, aclamada e elogiada na cena indie”. Depois de assinar com a Columbia Records, os Ting Tings levaram seu indie-pop-eletrônico para os EUA, com duas apresentações no festival South By Southwest (SxSW) e uma turnê de costa a costa que incluiu espaços alternativos selecionados.

Em abril, a Apple lançou na Europa um comercial para iPod e iTunes mostrando a silhueta de pessoas dançando ao som de Shut Up and Let Me Go. O comercial apareceu também na TV americana e no site da Apple (
www.apple.com/itunes/ads/gamma). A música também embala episódios do seriado adolescente “Gossip Girl”, que tem um blog como fio condutor da trama. 

Os The Ting Tings gravaram seu primeiro álbum, “We Started Nothing”, por conta própria no prédio da Islington Mill, em Manchester. “Não esperávamos que isso acontecesse”, diz Katie. “Acho que foi por isso que deu certo. Porque não tivemos preocupação alguma e fizemos as músicas para nós mesmos e para mais ninguém. Apenas criamos músicas que amamos. Está tudo indo muito bem e não sei o que isso tudo significa. Apenas seguimos em frente. Chegamos tão longe sem planejamento algum, sem traçar planos de batalha”, diz Katie, curtindo o sucesso com a postura descompromissada de quem navega aleatoriamente pela internet.


last updated:

DEC 04 08

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